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(republicando…)

Sempre tinha medo de que ouvissem meus pensamentos, medo de que eles explodissem assim, grandes, como um grande arroto na sala de jantar. Mamãe ficaria brava e me mandaria de castigo, e papai me privaria da verdadeira razão pela qual jantamos: a sobremesa! E então, sozinha, inha, infinitamente… {esprimida embaixo da minha cama}, eu escutaria pelo chão do meu quarto os vermes roendo a casa toda, a começar pelo porão… era tarde demais! Um monte de coisas podia acontecer e era que aconteceu! Já não tinha mais praga nos jardins, já não tinha mais peste lá em casa, já não tinha “lá em casa”, e a fome desaparecera… a fome de justiça, a fome de cultura, a fome de livros, a fome de vida! Não dessa fome que se mata em supermercados, não! Que essa faz tempo que existe e a gente nem liga mais para ela. É só atravessar a rua e fechar os vidros embaçados do carro sujo e sem moedas, sem olhares, sem esperança.

(Um dia vou contar uma coisa para vocês: a fome da esperança tava suja e a esperança da fome, parecida com aquelas crianças da somália, ou não, tava mais parecida com aquelas modelos bulímicas, que precisam ficar magras para caberem no cabide)

Não quero mais falar da fome, não quero mais falar com você, porque isso me dá indigestão, garoto! Não percebe que não adianta as pessoas ficarem bonitas e burras no seu estado natural das coisas? Não percebe? Isso que você está me dizendo, para falar mais baixo, para que serve? Para não assustar aquela menina de blusa azul? Eu percebi que você está de olho nela e, sinceramente, não entendi por que não vai lá, tira-lhe a roupa, despe-lhe do medo e casa-se com ela, só por uma noite… só por uma noite, não é? Não terias coragem de inventar seus desejos sexo após sexo, não é? É preciso fugir antes que se apegue, é preciso esquecer antes que se apague, é preciso a fome, mas não entendeu ainda que a fome nem sempre se mistura com necessidade. E o apetite se esvai assim, sem você sequer frutificar o que tinha para viver, garoto tolo! E a garotinha de azul vai para sua casa azul, esquecer do dia azul que teve, ou melhor, do dia azul em que não sonhou! E você vai para o seu banheiro, gozar um pouco solitariamente, pensando em ninguém, porque seu sexo é vazio-não-compartilhado… também não entendeu que não importa aonde nem com quem, mas a sua mente pode te fazer gozar melhor do que eu, mesmo quando estou comendo uma caixa inteirinha de bombons, sozinha, e sei bem dentro de mim no que isso vai dar.
É a vida, não é? E você tem medo de encarar. Sequer encara a morte que te espreita e é dela, meu moleque, guarda bem, é dela que vem o sexo que molha e o teu desejo que te devora as entranhas. Esquece o que te disse: fica com essa flor que ela acalentará seu sangue manchado de azul, já que não ousas ser vermelho como tua mãe implorou em sua concepção. Estavas lá quando tudo ocorreu, lembras-te? Claro que não, a vida foi dura contigo e preferiste esquecer. Então guarda: isso tudo são chocolates e a tortura é a caixa onde guarda teus segredos.

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7 comentários Adicione o seu

  1. edu disse:

    ótimo texto....beijoedu

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  2. Beatriz, cheguei aqui através dos Olhos de Sol de Daisy Melo. Vim agradecer o comentário de meu “Surto”, publicado por lá. Agora é tarde. Serei visita chata, quase que diária…:-)Belíssimo blog, qualidade literária casada com projeto visual de primeira. Gostei muito do ritmo de (Con)junções, conferindo muita musicalidade ao poema. E, ademais, um blog com epígrafe de Mia Couto deve ser visitado obrigatoriamente todo dia.Beijo.

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  3. Geórgia disse:

    Tem coisas que a gente lê e se vê atiçada a pensar coisas que a gente adia. Aí o pensar sobrepõe a leitura e a gente tem que reler tudo de novo, pra começar a pensar de novo e de novo.. Foi assim a estória: eu e o seu texto. Beijo.

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  4. Belos sons em belas palavras ritmadas. .hábraços.claudio

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  5. Ana disse:

    Texto bom viu moça? Muito bom mesmo,o ritmo… muito bom…

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  6. Excelente Bia, excelente. Texto de primeiríssima qualidade. beijos.

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  7. Linaldo disse:

    lembrei agora da musica de raul, onde deus ve tudo que a gente faz… valeu, bea

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