Segunda Caixa

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(vazio) De repente, queria que as caixas falassem, que contassem suas próprias histórias. Não sob a perspectiva do que já foi; mas do que continuou sendo, a despeito da memória dos olhos. Era como se cada uma delas tivesse a sua própria lembrança, mais ou menos como acontece com gente. Só que as caixas permitem o gerúndio das coisas, muito mais do que nós, inter-ferentes nesta espécie de evolução que é o mundo.
Seus pensamentos eram soltos, e escorriam nas coisas do redor, até que as negras pupilas pousaram na porcelana grosseira à sua frente. “Pintada por mamãe”, pensou. E só pôde se lembrar do passado, do distante que conhecia. Sequer apercebeu-se que o antes e o depois lhe vazavam pelas asas da xícara quebrada.

(o corte) Pegou aquele conjunto de fichas que tinha para apostar no passado e arriscou:

– Futuro, por favor.

Burburinho seguido de descrença geral. E o homem da mesa, preenchendo de palavras o vazio do ambiente, explicou, solícito:

– A senhora não precisa apostar agora. Pode pensar um pouco mais, guardar as fichas para mais tarde…
– Já disse: futuro! – interrompeu.

E as fichas saltaram para a casa 2 daquele destino incerto, como se soltas fossem, como se o mundo girasse, como se as vontades decidissem o rumo das certezas.

(as asas) Levou para casa aquela xícara desConhecida, aquele pedaço de vidas passadas, aquele retalho maciço e frágil, tão-tesouro-de-criança. Três moedas e silêncio na relíquia de família.
Um dia entenderia.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Geórgia disse:

    Tô saindo inspiradíssima com esse texto seu. Ele me deu umas pegadas boas, e lá vou eu colocar o que tá aqui dentro no papel. Que papelão heim? Meu beijo.

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  2. Vais disse:

    Olá Bia,
    que bacana!
    lembrei de um pedacinho dum escrito que escrevi;
    ‘Dói saber que tão poucos vêem e compreendem a pedra. Quantas não levaram topadas e sentadas, e outras na imensidão ou na pequenez dos desertos ouviram o vento, sentiram o castigo da chuva forte ou queimaram-se ao sol?
    Irei ao deserto, quando lá chegar deixará de sê-lo,e trar-te-ei pedra, se assim quiseres, e apertar-se-á comigo num apartamento’.
    Nos inspiramos noutras inspirações.
    virei mais aqui.
    abraço

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  3. diovvani disse:

    Bia! Sempre insPiraçao da boa aqui. Eu também, andei brincando com uma caixa, com o antes e o depois. AbraçoDasGerais.

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  4. ediney disse:

    teu texto me sugere mistério e encontro, sem deixar de se notar uma certa tristeza em algo que não se tem e que assim mesmo se perde

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  5. Acho que uma das coisas mais interessantes em se ter um blog, consiste no fato de que o mesmo texto pode ser lido, relido e treslido inúmeras vezes, pelas mesmas pessoas e por pessoas diferentes, sempre sugerindo novas interpretações.
    Quando publicamos um texto, ele deixa de ser SEU e passa a ser literatura. E cada um dos leitores irá intervir no processo de construção do significado deste texto.

    Vocês não imaginam o quanto me é RICO este processo de criação, contando sempre com o feedback de vcs.
    Acho que estes “ecos” textuais são mais produtivos que qualquer outro elogio sem conteúdo – por mais florido que fosse – que eu pudesse receber.

    Obrigada a todos mesmo, pela visita, pelo carinho, e pelos comentários e e-mails que me mandam.
    Voltem sempre!
    (pretendo responder a cada um individualmente, mas já deixo aqui meu muito obrigada!)

    Grande beijo,
    Bia

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