Amar é…

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{Dopamina para Ana P.
O que me resta? Lexotan?}

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Amar é…
Colunista explica processos químicos que ocorrem no cérebro quando nos apaixonamos

Não leia este artigo se você achar que o amor é algo que deve ser tratado apenas por poetas e escritores. Se, por outro lado, você já experimentou o prazer de amar e as desventuras de não ser correspondido, se já fez uma série de coisas ridículas quando apaixonado ou se já ficou balançado entre o amor e o ódio por uma pessoa, certamente deve estar interessado em saber o que se passa com alguém nesse estado. Nesse caso, prossiga a leitura que este texto é para você.

Um casal de cisnes “namorando”. Diferentes mamíferos e aves apresentam repertórios específicos de carícias e rituais amorosos (foto: R Neil Marshman).

Observações comportamentais indicam que, de forma universal, aves e mamíferos investem uma quantidade considerável de energia em exibições para o sexo oposto e em embates para definir uma hierarquia de acasalamento. Além disso, essas espécies apresentam um vasto repertório de carícias e rituais amorosos. Todo esse gasto energético ocorre para se assegurar um maior sucesso reprodutivo e a transmissão de genes paternos e maternos para as gerações futuras. Mas como esse processo instintivo de fazer a corte funciona com criaturas tão complexas como os homens e mulheres?

Apesar de convivermos com dezenas de pessoas diariamente, somente alguns poucos indivíduos com que cruzamos em nossas vidas desencadeiam o amor e a paixão em nós. Que razões definem essa escolha? É inegável que o amor está relacionado com os atributos físicos de uma pessoa. Nós homens muitas vezes elegemos mulheres que possuam uma relação entre cintura e quadril em torno de 0,7 e que tenham curvas generosas. Acredita-se que essas preferências indiquem – de forma inconsciente – que essas mulheres sejam mais férteis, fator que era muito importante no início de nossa historia evolutiva.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais os homens sejam mais visuais em suas escolhas que as mulheres. Testes realizados com homens apaixonados indicam que, durante esse período, eles têm uma forte estimulação de uma área cerebral relacionada com a integração de estímulos visuais. A venda de revistas eróticas, principalmente voltadas para o público masculino, explora essa característica sexual.

No sexo feminino, por outro lado, a escolha dos parceiros é determinada, entre outros fatores, a partir de experiências passadas. Quando enamoradas, as mulheres apresentam atividade em três áreas cerebrais relacionadas com a memória e a capacidade de evocar fatos passados. Talvez seja por isso que, às vezes, durante alguma discussão, nossas namoradas relembram de algo feito por nós há muito tempo e que as tenha desagradado!

Coquetel químico
Certamente a escolha de nossos parceiros também se baseia em componentes culturais e psicológicos, mas existe uma série de fatores químicos envolvidos que muitas vezes passam despercebidos. A química envolvida no jogo amoroso é complexa, mas os papéis de alguns componentes-chave nesse processo já foram esclarecidos pela ciência.

Molécula de dopamina, um neurotransmissor que atua como estimulante natural e que é produzido em abundância no cérebro de pessoas apaixonadas (arte: Wikimedia Commons).

Quando apaixonados, homens e mulheres apresentam atividade em diversas áreas cerebrais. Contudo, é a ativação de uma pequena região que vem chamando a atenção dos pesquisadores: a área ventral tegmental, relacionada com a produção de dopamina, um neurotransmissor que atua como estimulante natural e que proporciona sensações de euforia, plenitude e mudanças de humor.

Outra área conhecida como núcleo caudado, situada na base do cérebro e relacionada com a memória e o aprendizado, também é ativada quando estamos enamorados. Juntamente com a área ventral tegmental, esse local forma uma região primitiva de nosso cérebro conhecida como o “centro de recompensa”.

O centro de recompensa calcula nossas expectativas futuras relacionadas com experiências vivenciadas e, por isso, também está envolvido na prática de jogos de azar e vícios em drogas. No caso de algumas pessoas, a recompensa do amor pode ser apenas, por exemplo, passar um fim-de-semana com o namorado que vive do outro lado do mundo após uma longa viagem.

Há, portanto, uma similaridade entre as áreas ativadas quando se consome drogas e quando estamos apaixonados. Isso de certa forma explica a necessidade e a dependência cada vez maior que sentimos de estar ao lado da pessoa amada e toda a frustração e, muitas vezes, as reações violentas que surgem quando não somos correspondidos. Quando isso ocorre, muitos acabam optando por não ter qualquer contato com lugares, pessoas ou objetos que lembrem a pessoa amada. Dessa forma, essa resignação substitui o desalento e evita o desgaste físico e mental relacionado com a perda do parceiro amoroso.

Frustrações amorosas podem levar ao ódio. O aumento nos níveis de dopamina que ocorre quando nossos objetivos não são alcançados pode desencadear o estímulo de uma região cerebral conhecida como amígdala, que está relacionada com essas sensações rancorosas. Portanto, é de certa forma verdadeiro o ditado popular segundo o qual existe uma distância muito pequena entre o amor e o ódio!

Caminhando nas nuvens
Além da dopamina, outro neurotransmissor conhecido como norepinefrina ou noradrenalina tem sua produção estimulada quando estamos enamorados. Por outro lado, ocorre uma diminuição na secreção de serotonina, um composto químico fundamental para a percepção e avaliação do meio que nos rodeia e para nossa capacidade de resposta a estímulos ambientais. A carência de serotonina é uma das responsáveis pelo estado de desatenção constante dos apaixonados.

O último beijo dado em Julieta por Romeu , quadro de 1823 do pintor italiano Francesco Hayez (1791-1882). O processo pelo qual indivíduos apaixonados têm ânimo revigorado para superar obstáculos – como a oposição das famílias à união do jovem casal – é conhecido como “efeito Romeu e Julieta”.

A dopamina e a norepinefrina nos auxiliam a fixar a atenção no objeto de nosso desejo e a encarar essa pessoa como original e diferente. Como a dopamina favorece a aprendizagem de estímulos novos e a norepinefrina nos ajuda a recordar esses estímulos, passamos a nos deter minuciosamente no ser amado que, assim, se transforma no centro de nossa atenção em detrimento das outras pessoas.

Por outro lado, o pensamento constante – e muitas vezes obsessivo – focado na pessoa amada se deve à diminuição dos níveis de serotonina. Também o ciúme, um dos “efeitos colaterais” do amor, pode estar associado com as alterações nos níveis desse neurotransmissor.

As mudanças comportamentais que ocorrem quando nos apaixonamos estão associadas com a ação da dopamina, que também está relacionada com a motivação e com as condutas voltadas para a busca de um objetivo concreto. Além disso, um aumento nos níveis de dopamina ocorre quando surgem obstáculos para uma relação amorosa, intensificando os sentimentos. Esse processo, conhecido como “efeito Romeu e Julieta”, ocorre quando estamos diante da adversidade amorosa.

Quando comparamos cérebros de indivíduos enamorados com os de pessoas sexualmente excitadas, observamos o estímulo de circuitos cerebrais diferentes. Porém, o amor leva a um aumento da produção de dopamina que, por sua vez, conduz a uma elevação dos níveis de testosterona, o hormônio sexual masculino relacionado com o desejo sexual.

Pés no chão
Ao final de um envolvimento amoroso, a diminuição dos níveis de dopamina evita um desgaste energético desnecessário e prejudicial para o organismo. Se a concentração dessa substância cair muito, um sentimento de letargia e tristeza será induzido.

Dois hormônios conhecidos como vasopressina e oxicitocina, produzidos pelo hipotálamo, glândula situada na região abaixo do cérebro, se encarregam na fase final de uma relação amorosa de nos trazer de volta às responsabilidades de nossa vida cotidiana. Interessantemente, esses dois hormônios também são liberados ao final do orgasmo e nos proporcionam uma sensação de paz e cumplicidade com a pessoa amada – algo que sem dúvida reforça a ligação entre os parceiros amorosos.

Mesmo que o amor e a paixão um dia acabem, esses sentimentos já deixaram marcas indeléveis e lembranças que perduram por toda a nossa vida. Apesar de estarmos apenas agora desvendando alguns dos mistérios desses sentimentos, a sua contribuição para o espírito criativo da humanidade são inegáveis e levaram à produção de algumas das maiores obras de arte da humanidade com um único objetivo: chamar a atenção e agradar ao ser amado.

Jerry Carvalho Borges
Colunista da CH On-line 
19/10/2007

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