Conversas com Cecília

Existem coisas que a gente simplesmente não explica, porque inesperadas. Pois eu digo que são esses cacos que nos unem e dão sentido à existência. A vida é, sim, caótica, porém, cheia de fragmentos que a justificam.

Estou extasiada. Há tempos eu andava adormecida em berço-nada-explêndido, sem conseguir ouvir a voz de minha criatividade – supondo que eu tenha alguma. Por isso, calei meus escritos e enrouqueci neste imenso silêncio. E foi assim, até encontrar, novamente, o Caos. Não qualquer um, mas o “Caos na sala de jantar”, de Cecília Prada, uma escritora premiada inúmeras vezes, traduzida para o alemão, italiano e espanhol e com um talento incomum nos tempos de caos-cibernético.
Quem sabe agora eu volte a gritar, com voz sincera – rouca ou não – meu próprio grito inicial, tantas vezes contido no peito e, Por um Triz!, calado.
Um início:
LA PIETÀ (*) Um conto de Cecília Prada (1972) Cidade do Vaticano (21) – “La Pietà”, a primeira escultura religiosa do Renascimento italiano, famosa em todo o mundo e venerada no Vaticano por fiéis e milhões de peregrinos, foi parcialmente destruída…

Olhou para a barriga, sorriu. De manhã tão cedo. O ônibus da Rocinha sacolejava.Tinha deixado o café pronto para quando o João acordasse, no barraco.
Contanto que nasça bem. Vai ser um menino. João, também. Ou Francisco, que nem meu pai. O ônibus sacode, dá uma dor aqui, tanta pedra, estrada ruim, não vai chegar nunca lá embaixo? Bobagem, faz mal não.A cunhada Maria sofreu até desastre da Central, de sete meses.E o menino nasceu.
….parcialmente destruída. O ato de vandalismo ocorreu às nove horas da manhã, diante da multidão que fazia fila diante da célebre obra que….

No hospital do Instituto uma fila enorme de mulheres de barriga avançando para o mundo, as mulheres, as mulheres todas e suas barrigas, tristes barigas, as mulheres se debruçando em suas barrigas. Na seção que tinha um nome esquisito. Damiana soletrava a custo, “gi-ne-co-lo-gi-a…obs-te….”
que é uma das mais célebres expressões da cultura humana.

O médico gritou:
– Você aí, não está ouvindo? Avança logo que tenho mais o que fazer.Tira a roupa.
Tira a roupa. Tira a calça. Anda. Deita. Levanta. Tira a calça.
A enfermeira gorda sacudiu-a:
– Tira tudo.
O toque doeu. Ela deu um gemido. Bruto. Que nem o João,quando queria ela deixava mas pensava vai fazer mal prô menino… Abria a perna. Deixava. O João. O médico. Estripada, pensou. De perna aberta prô mundo, sua puta.
– Levanta, o que tá pensando?
– Elas pensam que a gente tem o dia todo. Não vai ser fácil não, vou dizendo logo. Se sentir dor, venha logo. De carro. Se puder. Onde mora?
– Na Rocinha.
– Hum! ..Mande entrar a seguinte. – continua.

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