(R)Iscados

Aos peixes não é dado o tempo natural de morrer. São arrancados das águas, iscados, para sempre, de suas humildes existências.
Aos peixes não é dado sofrer. Acompanham os desaparecimentos de seus semelhantes, incapazes de verterem uma só lágrima, imersos que estão em água e sal.
Só aos peixes seria dada a dádiva de uma existência plenamente límpida e fluida, mas coube ao homem inventar a isca, a mesa e a faca. Sentamo-nos unidos em volta da mesa redonda e oferecemos aquele a Ele, saciando – ainda que momentaneamente – nossa fome de fluidez, de liberdade, às custas de água e sal.
Mas, na outra calçada da rua:
aquele
-traço-de-homem
a quem a vida já era tão pesada
carregava
nas vírgulas de suas costas
um saco repleto
de sua vida
vazia
e assim, livre e descontinuadamente-traço, a vírgula se arrastava às margens do que poderia se chamar rua vida. (R)Iscado, lentamente, de sua humilde existência. Incapaz de verter uma só lágrima. Uma só. Não mais.
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1 comentário Adicione o seu

  1. naciotto disse:

    úmida existência. Ótima isca!

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