A última carta

manray3890Mentalizou, embaralhou, cortou. A Roda da Fortuna, hein? Com tua casa 9 em Touro, então, bem nessa fase de eclipse lunar em plena Pessach judaica… Revoluções, hein?! Está preparada? Baixou os olhos sem resposta. É bom estar. A gente nunca sabe o que os astros esperam da gente, não é mesmo? E olha, pra ti não é pouca coisa não! Não se assuste — a ênfase na frase dizia para sentir o contrário do enunciado –, mas muitas coisas ainda estão por acontecer. Estou falando de mudanças drásticas, inesperadas. Revoluções mesmo. Já falei isso, né? E gesticulava, tagarelando o futuro incerto de M.

Queria sair dali, aquela pouca luz, aquela muita fumaça… Começava a sentir náuseas. Pediu com licença, saiu com a bolsa.

E o cinza do dia se esparramou à sua volta.

Revoluções. Que porra queria dizer com tudo aquilo? Procurara Madame P. apenas para saber se seu marido a andava traindo. Ora, era uma simples resposta: sim ou não. Não existia “estar traindo mais ou menos”, assim como não existia “estar mais ou menos grávida”. Grávida. E toda aquela situação voltou à sua cabeça. Num flash, o passado se instalava, em carne viva. Tá vendo? Aquela história de presente-passado-futuro ser a mesma coisa até dava pra sentir de vez em quando. Um dia ouviu que isso era religião, mas não entendeu.

Atravessou rápido. Não queria ir para casa, lidar com tudo aquilo, não agora. O quarto já estava desfeito. A história, superada. E se tivesse tido o filho? Divagava. Resolveu fazer outro percurso.

Maria. Maria. Dona Maria. Oi? Seu café vai esfriar. Ah. É. Bebeu, já sem interesse, para não fazer desfeita ao dinheiro, que estava curto. Pagou. Agradeceu.

E o frio da tarde se derramou à sua volta.

Vou ver Geruza e reclamar o dinheiro gasto numa casa de macumbaria à toa!
Que macumbaria, sua louca? Você lá sabe o que está falando? Se é pelo dinheiro, eu pago.
Mas não era.
É pelo tempo. Perdido. Pelo casamento. Se perdendo. Era pelo filho que nunca… chorou. Muito. Achava que as lágrimas já tinham secado, como o leite, o amor e tudo o mais. Mas talvez o que mais doesse era sentir-se como uma planta-carnívora do próprio feto. E agora, devorava-se por dentro. Como alguém que depende de outro ser para compensar as deficiências do seu solo quase-estéril. Seria isso sua vida? Amiga, nem sei o que dizer. Nisso tudo, não sei o que realmente importa. O que realmente conta. E essas contas, é você quem tem que fazer. É que esse embrulho pendurado no peito chamado sentimentos é tão difícil de carregar, não é? Nem se divide. Mas se compartilha. Às vezes. Respira. Volta pra casa. Se acalma. Conversa amanhã. Com a cabeça fria, as palavras saem menos quentes da boca.

Respirou fundo uma vez. Olhou a amiga, mais uma vez. Abraçou-a e agradeceu as palavras, o carinho. Não sabia como seria voltar para casa. Mais uma vez. Olhar para Alberto, como a primeira vez. Ouvir o que o espelho a diria quando o encarasse sozinha naquele quarto vazio.
Mas seguiu, passos lentos e decididos para fora.

E a escuridão da vida entornou à sua volta.

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