Repensando o Amor, #PorTodasNós, antes de [re]começar

O projeto ReadyMade Interventivo – #PorTodasNós nasceu num período muito delicado da minha vida, tanto pessoal como profissional. Um período de mudança de país, readaptação à nova cultura, reorganização das estruturas de trabalho e de criação literária e uma necessidade de voltar a me expressar criativamente.

Nasceu, também, num período de muita turbulência emocional. Atravessei o oceano por um relacionamento que se mostrava, desde o início, algo extremamente abusivo e com tendências a ser violento, mas não aceitei os sinais e preferi acreditar, inocentemente, que comigo o final da história seria diferente. Havíamos passado dois meses juntos em Portugal, terminamos por excesso de ciúme da parte dele. Antecipei minha volta ao Brasil por conta das ameaças que sofria diariamente e esta história deveria ter terminado ali, comigo no Brasil continuando a minha vida. Mas ele insistia em me procurar, dizendo que me amava e que queria muito mudar. Queria aprender a respeitar meu espaço, minha individualidade, deixar de ter tanto ciúme e cuidar de nós dois.
A despeito de todos os conselhos de minha família e meus amigos mais íntimos, que intuíam sabiamente que minha felicidade não estava ali, decidi dar mais uma chance àquela relação falida. E, neste período de 3 meses em que estive no Brasil, namoramos a distância. Ainda com brigas por conta de ciúme e todos os sinais de que aquela relação NÃO iria mudar, nem iria para lugar algum.

Comprei passagens de volta a Portugal. Desta vez, ficaria três meses com ele aqui (estou em terrinhas lusitanas). Em duas semanas e meia apenas, novamente a explosão de ciúme que, cada vez, precisava de menos para se manifestar: uma alteração de foto no meu perfil do Facebook e os comentários de “gajos”, de repente, transformaram-me em uma pessoa , digamos, com moral duvidosa… (não vou reproduzir os insultos que recebi por conta disso). A briga foi parar na rua, comigo refazendo as malas, pois decidi que não precisava mais passar por aquilo. E, no meio dos insultos, que já agrediam não só a mim, mas a todas as “brasileiras” (sim, infelizmente não é mito a “fama” que temos no exterior, amigas…), conheci mais uma brasileira, que se prontificou a me levar até onde eu quisesse/precisasse e deu voltas e voltas com seu carro, até escutar minha história, meus lamentos, e me acalmar. Disse-lhe que iria à Espanha. Ela lamentou que eu estivesse indo embora e me passou seus contatos. Viramos amigas para o resto da vida.

No dia seguinte, fui à Espanha, mesmo sem conseguir falar com minha querida amiga espanhola e sem ter certeza de seu endereço ou, mesmo, se ela estaria lá para me receber. Arrisquei tudo e fui. Às vezes, é necessário largar a pele antiga para que uma nova possa começar a lhe proteger.
Fiz check-out no hotel, peguei um táxi, autocarro para Vigo e passei uma noite por lá.
Dia seguinte, parti para a cidade da minha amiga, mas ainda sem a resposta dela. Na pior das hipóteses, eu voltaria para Braga (Portugal) e teria passado dois dias na Espanha, mas a intuição feminina é algo muito forte e que nos une. Minha amiga espanhola estava sem receber minha mensagem porque tinha quebrado seu celular. Porém, passou o dia inteiro pensando em mim e, ao final do dia, quando eu já havia desistido de receber qualquer resposta sua e já estava abrigada num hotel, conformada a voltar a Portugal no dia seguinte, ela me telefona do celular de sua mãe, apenas para saber se eu estava bem. Chorei de alegria. Contei-lhe que estava em sua cidade, mas queria passar a noite só no hotel. No dia seguinte, ela e seu marido, também querido amigo, foram me buscar.

Fiquei duas semanas na casa deles, sem saber o que fazer da minha vida e da minha viagem: ainda teria mais de 2 meses de Europa e não sabia para onde ir. Até que fomos passar um dia em Léon e foi lá que decidi: faria o Camino de Santiago. Não sabia se estava pronta para tamanho desafio, mas era necessário tentar. E fui.
A vida é uma sucessão de escolhas, mas há algumas tão cruciais que definitivamente mudam todo o rumo das nossas histórias. E fazer o Camino foi uma delas.

Neste período, meu ex-namorado já voltava a me perseguir pela internet, por mais que eu bloqueasse TODOS os perfis que ele criava no Facebook. Oras pedia para voltar, dizendo que me amava e queria mudar. Oras me ameaçando a vida.
Decidi guardar as mensagens, mas não respondê-las. Ainda não sabia o que faria com elas.

No Camino, conheci muita gente, que acabava me apoiando demais. Dentre essas tantas pessoas, uma amiga em Ligonde, que intuiu – antes de lhe contar minha própria história -, que eu deveria trabalhar no empoderamento de mulheres de alguma forma, sobretudo as que arriscaram tudo por amor e se desiludiram sem saber o que fazer com suas vidas, muitas vezes sem terem para onde voltar. Contei-lhe, então, minha história, e as coincidências entre o que ela intuía e o que eu vivera nos deixaram atônitas.
Também em Ligonde foi onde conheci Peter, um amigo alemão de quem nunca irei me esquecer. A certa altura, ao me ver chorar num café em que paramos, no meio do Camino, por conta das ameaças que eu recebia de meu ex, ele me disse: Beatriz, não se pergunte por que isso aconteceu com você. Às vezes, a melhor pergunta a se fazer é: o que só eu posso fazer com isso que aconteceu a mim. E isso fez toda a diferença, porque eu nunca fui uma mulher de levar desaforo para casa. Nunca aceitei calada injustiças ou ofensas. E não seria desta vez!

Faltavam 2 dias para chegar a Santiago e decidi que, de lá, eu voltaria a Portugal, viver uma experiência numa ecoaldeia vegetariana que eu conhecera enquanto ainda estava no Brasil, e que o medo que eu tinha desse meu ex não iria matar meus sonhos e meus projetos. 

Na ecoaldeia, eu ainda recebia as ameaças do meu ex, que já postava ofensas não apenas em mensagens privadas a mim, mas para minha família, meus amigos e em minha página de trabalho.

Ao voltar a Braga, soube que ele estava nas drogas, mas tentava se curar. Tinha parado de me perseguir a algumas semanas e, por algum motivo incoerente, eu me sentia culpada pela situação dele! Soube que estava sem falar com a família e eu decidi procurá-lo e oferecê-lo ajuda, inclusive financeira, para o tratamento.
Este foi mais um erro: não há culpa por parte da vítima e cada um de nós é responsável pelos próprios caminhos que decide trilhar! Eu não era responsável pelas escolhas dele. Eu só era responsável pela minha felicidade e, mais uma vez, estava sabotando-a em nome de algo que JAMAIS teria futuro! Encontrar-me com ele foi como colocar um viciado diante da droga que ele usava. Ele chorou, pediu perdão. Apiedei-me. Voltamos. E claro: NADA MUDOU.

Terminou duas semanas mais tarde, comigo chamando a polícia em frente ao prédio em que moro atualmente, por conta de uma tentativa de agressão física, que envolveu vizinhos tentando me ajudar.
O policial que me atendeu, jovem alto e bonito, olhou bem nos meus olhos e perguntou: por que uma mulher tão bonita como tu aceitou passar por tudo isso? Por que as mulheres sempre acham que podem mudar alguém? Por que esperam que da próxima vez seja diferente? Por que sempre esperam pela próxima vez?

E eu não tive resposta a nenhuma daquelas indagações.

A equação é simples e está nos relatórios policiais: as agressões não diminuem. Nunca. Elas aumentam em número e proporção cada vez mais. Antes, ele quebrava suas (dele) próprias coisas, sobretudo o celular, quando havia alguma crise de ciúme envolvendo as redes sociais. Depois, vieram as agressões verbais, psicológicas e emocionais.
Nunca pensei que chegaríamos à agressão física, com ele tentando me enforcar na porta do meu prédio. Nunca imaginei que escutaria um policial me dizer, após o preenchimento da denúncia que fiz, que meu caso será resolvido rapidamente porque, infelizmente, já se trata de violência doméstica grave. Mas encorajou-me, dizendo que felizmente eu tive coragem de cortar este mal logo na primeira agressão física, e que a maioria das mulheres espera por anos até tomarem esta decisão. 

Não estou feliz com esta situação. E, por incrível que pareça, não o quero mal. Só quero novamente minha liberdade e ter garantido o meu direito de ir e vir sem medo, sem qualquer tipo de coação da parte dele. Andar de cabeça erguida sabendo que o passado não volta e que olhar para trás não muda nada, mas que é possível, sim, repensar as escolhas daqui para a frente, compreendendo que TODAS as nossas atitudes têm consequências e, algumas, para sempre.

De toda essa experiência, nasceu minha necessidade de falar de violência de gênero e, daí, o projeto ReadyMade Interventivo. A princípio, seriam 33 poemas em forma de Ready Made baseados em notícias diárias de jornais sobre violência às mulheres. Mas falar de algo tão cruel (e, sobretudo, perceber como é corriqueiro esse tipo de notícia em nosso cotidiano), estava me fazendo mal. Por isso, decidi dar um outro rumo ao projeto e ao meu olhar sobre a vida: quero falar, sim, da luta de gênero, mas não mais sob o prisma da violência. Agora, sob o prisma da superação. E numa linguagem mais conectada ao que ando produzindo atualmente: uma prosa mais poética, que é o meio que me desafia e me agrada mais atualmente.

Tudo isso para (continuar a) dizer que vamos falar, sim, de violência. Mas sob o ângulo da superação. Porque somos mulheres. Porque somos irmãs. Porque queremos e precisamos nos unir nesta luta com toda a sinceridade possível!

Falar sobre isso é difícil. Sei que nos sentimos julgadas e culpadas, até mesmo por “amigas”, tantas vezes incapazes de se colocarem em nosso lugar. E se sentir incompreendida pelas próprias irmãs (que, às vezes, até se acham feministas no discurso) é algo que dói muito. Perdi amigas neste caminho. Pessoas às quais eu queria muito bem, irmãs espirituais de verdade (ou eu achava que…). E o pior: antigamente, na situação delas, talvez eu mesma tivesse agido desta forma: julgando a parte feminina como sendo uma parte fraca e, portanto, conivente e culpada. E se uma coisa aconteceu de bom nisso tudo foi, justamente, que pude reconhecer os verdadeiros amigos, me reconectar com minha força interior e, finalmente, aprender a falar sobre essa experiência desgastante que ainda ecoa em minha vida. Falar com outras mulheres acerca de um assunto tão delicado e, finalmente, sem julgamento, com a verdadeira sororidade* que precisamos e merecemos.
Foi depois de vivenciar esta relação que pude compreender o “mel” que existe e nos atrai e que tantas vezes nos mantêm presas numa corrente doentia que pode e geralmente culmina em violência física. Então, hoje não julgo mais as mulheres que estejam tentando sair deste tipo de relação e se sentem sozinhas, sem ter com quem dividir as dores, as incertezas, os medos, as angústias, até o sentimento absurdo de culpa que elas, como vítimas, sentem. Não julgo. Simplesmente, quero apoiá-las e oferecer, de fato, minha sororidade, os aprendizados que tive sobre mim mesma neste caminho (e no Camino) e, quem sabe, ajudá-las um pouco que seja, oferecendo a ajuda que tive desses novos (e verdadeiros) amigos que fiz.

Por isso, quem quiser conversar comigo sobre assuntos de gênero, compartilhar sua história (presente ou passada), pode me procurar: beagalvao2@gmail.com. Coloque no assunto: “Uma questão de gênero” que, assim que possível, eu retorno o contato.
Sem julgamentos, que não precisamos disso. Precisamos, queremos e merecemos ser felizes! Integralmente. Só isso.

(E o projeto ReadyMade Interventivo #PorTodasNós continua na semana que vem, já no novo formato. Para acompanhar, é só seguir o blog.)

*Sororidade vem de Soror: irmã. É o pacto entre nós, mulheres, que nos reconhecemos como irmãs numa dimensão ética, política e prática.

PS: Família, não se preocupe: eu estou (muito!) bem e em segurança!! ^_^

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2 comentários Adicione o seu

  1. Veronica Wilson disse:

    Excelente.
    O sem número de experiências semelhantes entre nós, mulheres, é incrível!
    Quando há filhos, então!
    E anos depois,muitos ainda nos cobram: por escolhas erradas, por ” omissões “( em que nada ajudaram para não ocorrer, muito pelo contrário), por agressões psicológicas ou físicas sofridas ( até filhos o fazem), colocando , como sempre ” a vítima no lugar de culpada” e ,não raro, tendo pena ou ” admiração”, respeito, etc; pelo agressor…
    É muito difícil, MESMO!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Bea Galvão disse:

      Veronica, gratidão pelo seu depoimento! É duplamente difícil mesmo… Primeiro, convivemos com as agressões. Depois, com a culpa. Quando tomamos uma atitude, “saímos” (na visão dos outros) do papel de vítima para nos tornarmos carrascas. E ainda temos de lidar com a memória dessas experiências pelo resto da vida, até resgatar nossa autoestima. Por isso, amiga, sororidade é a palavra! Quero que cada vez mais mulheres comecem a falar abertamente sobre suas experiências com as outras, sem julgamentos e com muito acolhimento de todas as partes. Só assim vamos deixar de “prestar contas” a uma sociedade repressora e machista e, efetivamente, começar a construir um mundo mais humano e igualitário! ❤
      Um beijo!

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